01. O Projeto Sonhos e Sandplay Sonhos e Sandplay - Imagens do Self



Buscar articulação entre a fenomenologia dos Sonhos e as imagens e emoções advindas das experiências com o Sandplay (Caixa de Areia) tem origem no cotidiano da atividade clínica e parece se orientar na perspectiva de encontrar diferentes caminhos e formas na expressão das representações das imagens psíquicas em narrativas criativas e autorais.
Por repetidas vezes, a pedido das próprias pessoas, a experiência de narrar os sonhos ou qualquer outra emoção foi complementada através de meios expressivos não-verbais que complementaram as necessidades na elaboração das narrativas. Amplificar a natureza das representações através de outras experiências sensoriais é um caminho natural que se mostra cada vez mais adequado ao trabalho clínico. O uso do Sandplay é singular e consolida-se como um especial destaque na criação psicológica em todo o processo de Psiquização. Imagem e Representação são os pontos fundamentais na elaboração de narrativas e ficções que curam. Daí, ao articular o trabalho com os Sonhos com a atividade do Sandplay se mostra como uma atitude que nos traz desafios, diálogos e mistérios que possibilitam, cada vez mais, apontar para a natureza da Psique. Queremos um diálogo que evoca o “fazer artístico” em seu oposto imediato, o “fazer psicológico”. A ideia é encontrar a “via régia” que acessa esse núcleo arcaico de imagem e vida que, instintivamente, cria e recria o mundo também à sua imagem e semelhança. Ao encontro da vida psíquica lembramos Jung quando afirma que:

Tudo o que experimento é psíquico... Minhas impressões sensoriais são imagens psíquicas e só estas constituem meus objetos imediatos de experiência. .... Somos, na verdade, tão isolados pelas imagens psíquicas que não podemos penetrar até a essência de coisas externas a nós mesmos. Todo o nosso conhecimento é condicionado pela Psique, que, por ser a única imediata, é superlativamente real (JUNG Vol. VIII § 423).

O objetivo do curso é o exercício de buscar analogias entre a fenomenologia dos Sonhos e as experiências psíquicas na criação das cenas no Sandplay dentro do processo analítico “como se” pudéssemos, por analogia, tratar ambas como afins em sua própria natureza e origem através das ficções, sintomas, imaginação ativa e demais conteúdos psíquicos. A ideia é aprofundar a concepção da Psique no intuito de que possamos tratá-la como  a “eterna presença” na vida cotidiana.

“A psique é o eixo do mundo; e não só uma das grandes condições para a existência do mundo, em geral, mas constitui uma interferência na ordem natural existente, e ninguém saberia dizer com certeza onde essa interferência terminaria afinal” 

Sigmund Freud dá o primeiro passo na direção de considerar os Sonhos como objeto de estudo e pesquisa psicológica publicando o livro “A Interpretação dos Sonhos” (Volume IV - Obras Completas). Entende o sonho como uma atividade psíquica organizada, diferente das atividades de vigília sendo por isso regido por suas próprias leis. Encontra assim um lugar para “o saber” sobre os sonhos considerando-o como uma produção própria do sonhador a partir de um conhecimento que lhe é próprio, ainda que este não saiba que sabe. O saber pelo sujeito, nessas condições, virá pelo exercício do método da livre associação onde se apresenta a ideia de que “A interpretação dos sonhos é a via régia que conduz ao conhecimento do inconsciente da vida psíquica”.
Nesse particular destaco o interesse pela ideia da “Via Régia”, ou seja: pela possibilidade de acesso a esse domínio por onde circulam diferentes conteúdos condensados em afetos, memória, imaginação, fantasia representados e narrados por meio de uma linguagem mito-poética, que revela as infinitas transformações vividas pela matéria prima da vida psíquica do sonhador. A “Via Régia” permite-nos o contato e observação da natureza ativa da personalidade quer seja pelo instinto criativo, auto regulação e a busca natural pelo centro, a individuação.